Educação humanizadora no Brasil
quinta-feira, 27 de março de 2014
Trovadorismo
http://www.brasilescola.com/literatura/trovadorismo.htm
Trovadorismo

DE AMIGO
Por Vânia Duarte
Graduada em Letras
Equipe Brasil Escola
Trovadorismo
O Trovadorismo se caracteriza como um
estilo de época, o qual se manifestou na Idade Média, durante o período do
feudalismo.
O trabalho camponês nos feudos – principal atividade durante o período
trovadoresco
Cumpre dizer, antes de tudo, que o Trovadorismo se
manifestou na Idade Média, período este que teve início com o fim do Império
Romano (destruído no século V com a invasão dos bárbaros vindos do norte da
Europa), e se estendeu até o século XV, quando se deu a época do Renascimento.
Nesse sentido, o artigo ora em questão tem por finalidade abordar acerca do
contexto histórico-social, cultural e artístico que tanto demarcou este
importante período da arte literária.
No que diz respeito ao aspecto
econômico, toda a Europa dessa época sofria com as sucessivas invasões dos
povos germânicos, fato este que culminava em inúmeras guerras. Nessa conjuntura
desenvolveu-se o sistema econômico denominado de feudalismo, no qual o direito
de governar se concentrava somente nas mãos do senhor feudal, o qual mantinha
plenos poderes sobre todos os seus servos e vassalos que trabalhavam em suas
terras. Este senhor, também chamado de suserano, cedia a posse de terras a um
vassalo, que se comprometia a cultivá-las, repassando, assim, parte da produção
ao dono do feudo. Em troca dessa fidelidade e trabalho, os servos contavam com
a proteção militar e judicial, no caso de possíveis ataques e invasões. A essa
relação subordinada dava-se o nome de vassalagem.
Quanto ao contexto cultural e
artístico, podemos afirmar que toda a Idade Média foi fortemente influenciada
pela Igreja, a qual detinha o poder político e econômico, mantendo-se acima até
de toda a nobreza feudal. Nesse ínterim, figurava uma visão de mundo baseada
tão somente no teocentrismo, cuja ideologia afirmava que Deus era o centro de
todas as coisas. Assim, o homem mantinha-se totalmente crédulo e religioso,
cujos posicionamentos estavam sempre à mercê da vontade divina, assim como
todos os fenômenos naturais.
Na arquitetura, toda a produção
artística esteve voltada para a construção de igrejas, mosteiros, abadias e
catedrais, tanto na Alta Idade Média, na qual predominou o estilo romântico, quanto
na Baixa Idade Média, predominando o estilo gótico. No que tange às produções
literárias, todas elas eram feitas em galego-português, denominadas de
cantigas.
No intuito de retratar a vida
aristocrática nas cortes portuguesas, as cantigas receberam influência de um
tipo de poesia originário da Provença – região sul da França, daí o nome de
poesia provençal –, como também da poesia popular, ligada à música e à dança.
No que tange à temática elas estavam relacionadas a determinados valores
culturais e a certos tipos de comportamento difundidos pela cavalaria feudal,
que até então lutava nas Cruzadas no intuito de resgatar a Terra Santa do
domínio dos mouros. Percebe-se, portanto, que nas cantigas prevaleciam
distintos propósitos: havia aquelas em que se manifestavam juras de amor feitas
à mulher do cavaleiro, outras em que predominava o sofrimento de amor da jovem
em razão de o namorado ter partido para as Cruzadas, e ainda outras, em que a
intenção era descrever, de forma irônica, os costumes da sociedade portuguesa,
então vigente. Assim, em virtude do aspecto que apresentavam, as cantigas se
subdividiam em:
1. CANTIGAS LÍRICAS DE AMOR
DE AMIGO
2. CANTIGAS SATÍRICAS
4. CANTIGAS DE
MALDIZER
O sentimento oriundo da submissão
entre o servo e o senhor feudal transformou-se no que chamamos de vassalagem
amorosa, preconizando, assim, um amor cortês. O amante vive sempre em estado de
sofrimento, também chamado de coita, visto que não é correspondido. Ainda assim
dedica à mulher amada (senhor) fidelidade, respeito e submissão. Nesse cenário,
a mulher é tida como um ser inatingível, à qual o cavaleiro deseja servir como
vassalo. A título de ilustração, observemos, pois, um exemplo:
Cantiga da Ribeirinha
No
mundo non me sei parelha,
entre me for como me vai,
Cá já moiro por vós, e - ai!
Mia senhor branca e vermelha.
Queredes que vos retraya
Quando vos eu vi em saya!
Mau dia me levantei,
Que vos enton non vi fea!
E, mia senhor, desdaqueldi, ai!
Me foi a mi mui mal,
E vós, filha de don Paai
Moniz, e bem vos semelha
Dhaver eu por vós guarvaia,
Pois eu, mia senhor, dalfaia
Nunca de vós houve nem hei
Valia dua correa.
Paio Soares de Taveirós
entre me for como me vai,
Cá já moiro por vós, e - ai!
Mia senhor branca e vermelha.
Queredes que vos retraya
Quando vos eu vi em saya!
Mau dia me levantei,
Que vos enton non vi fea!
E, mia senhor, desdaqueldi, ai!
Me foi a mi mui mal,
E vós, filha de don Paai
Moniz, e bem vos semelha
Dhaver eu por vós guarvaia,
Pois eu, mia senhor, dalfaia
Nunca de vós houve nem hei
Valia dua correa.
Paio Soares de Taveirós
Vocabulário:
Nom me sei parelha: não conheço ninguém igual a mim.
Mentre: enquanto.
Ca: pois.
Branca e vermelha: a cor branca da pele, contrastando com o vermelho do rosto, rosada.
Retraya: descreva, pinte, retrate.
En saya: na intimidade; sem manto.
Que: pois.
Des: desde.
Semelha: parece.
D’haver eu por vós: que eu vos cubra.
Guarvaya: manto vermelho que geralmente é usado pela nobreza.
Alfaya: presente.
Valia d’ua correa: objeto de pequeno valor.
Nom me sei parelha: não conheço ninguém igual a mim.
Mentre: enquanto.
Ca: pois.
Branca e vermelha: a cor branca da pele, contrastando com o vermelho do rosto, rosada.
Retraya: descreva, pinte, retrate.
En saya: na intimidade; sem manto.
Que: pois.
Des: desde.
Semelha: parece.
D’haver eu por vós: que eu vos cubra.
Guarvaya: manto vermelho que geralmente é usado pela nobreza.
Alfaya: presente.
Valia d’ua correa: objeto de pequeno valor.
Cantigas de amigo
Surgidas na própria Península
Ibérica, as cantigas de amigo eram inspiradas em cantigas populares, fato que
as concebe como sendo mais ricas e mais variadas no que diz respeito à temática
e à forma, além de serem mais antigas. Diferentemente da cantiga de amor, na
qual o sentimento expresso é masculino, a cantiga de amigo é expressa em uma
voz feminina, embora seja de autoria masculina, em virtude de que naquela época
às mulheres não era concedido o direito de alfabetização.
Tais cantigas tinham como cenário a
vida campesina ou nas aldeias, e geralmente exprimiam o sofrimento da mulher
separada de seu amado (também chamado de amigo), vivendo sempre ausente em
virtude de guerras ou viagens inexplicadas. O eu lírico, materializado pela voz
feminina, sempre tinha um confidente com o qual compartilhava seus sentimentos,
representado pela figura da mãe, amigas ou os próprios elementos da natureza,
tais como pássaros, fontes, árvores ou o mar. Constatemos um exemplo:
Ai flores, ai flores do
verde pinho
se sabedes novas do meu amigo,
ai deus, e u é?
se sabedes novas do meu amigo,
ai deus, e u é?
Ai flores, ai flores do
verde ramo,
se sabedes novas do meu amado,
ai deus, e u é?
se sabedes novas do meu amado,
ai deus, e u é?
Se sabedes novas do meu
amigo,
aquele que mentiu do que pôs comigo,
ai deus, e u é?
aquele que mentiu do que pôs comigo,
ai deus, e u é?
Se sabedes novas do meu
amado,
aquele que mentiu do que me há jurado
ai deus, e u é?
aquele que mentiu do que me há jurado
ai deus, e u é?
(...)
D. Dinis
Cantigas satíricas
De origem popular, essas cantigas
retratavam uma temática originária de assuntos proferidos nas ruas, praças e
feiras. Tendo como suporte o mundo boêmio e marginal dos jograis, fidalgos,
bailarinas, artistas da corte, aos quais se misturavam até mesmo reis e
religiosos, tinham por finalidade retratar os usos e costumes da época por meio
de uma crítica mordaz. Assim, havia duas categorias: a de escárnio e a de
maldizer.
Apesar de a diferença entre ambas ser
sutil, as cantigas de escárnio eram aquelas em que a crítica não era feita de
forma direta. Rebuscadas de uma linguagem conotativa, não indicavam o nome da
pessoa satirizada. Verifiquemos:
Ai,
dona fea, foste-vos queixar
que vos nunca louv[o] em meu cantar;
mais ora quero fazer um cantar
em que vos loarei toda via;
e vedes como vos quero loar:
dona fea, velha e sandia!...
que vos nunca louv[o] em meu cantar;
mais ora quero fazer um cantar
em que vos loarei toda via;
e vedes como vos quero loar:
dona fea, velha e sandia!...
João
Garcia de Guilhade
Nas cantigas de maldizer, como bem
nos retrata o nome, a crítica era feita de maneira direta, e mencionava o nome
da pessoa satirizada. Assim, envolvidas por uma linguagem chula, destacavam-se
palavrões, geralmente envoltos por um tom de obscenidade, fazendo referência a
situações relacionadas a adultério, prostituição, imoralidade dos padres, entre
outros aspectos. Vejamos, pois:
Roi
queimado morreu con amor
Em seus cantares por Sancta Maria
por ua dona que gran bem queria
e por se meter por mais trovador
porque lhela non quis [o] benfazer
fez-sel en seus cantares morrer
mas ressurgiu depois ao tercer dia!...
Em seus cantares por Sancta Maria
por ua dona que gran bem queria
e por se meter por mais trovador
porque lhela non quis [o] benfazer
fez-sel en seus cantares morrer
mas ressurgiu depois ao tercer dia!...
Pero
Garcia Burgalês
Por Vânia Duarte
Graduada em Letras
Equipe Brasil Escola
terça-feira, 25 de março de 2014
Luís Vaz de Camões
Luís Vaz de Camões 1º soneto: Amor é fogo que arde sem se ver, Amor é fogo que arde sem se ver,é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?
Tema: paradoxo amoroso
Nas três primeiras estrofes, temos os efeitos paradoxais do
amor no ser humano; na última estrofe, se estabelece a perplexidade
como conclusão do texto.
2º soneto: Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades
Mudam-se os tempos, mudam-se as
vontades,
Muda-se o ser, muda-se a
confiança;
Todo o mundo é composto de
mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na
lembrança,
E do bem, se algum houve, as
saudades.
O tempo cobre o chão de verde
manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o
doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor
espanto:
Tema: Desconcerto do mundo
Este é um dos mais perfeitos sonetos camonianos.Trata-se da temática
da mudança, conforme Heráclito: “Ninguém pode banhar-se duas vezes
no mesmo rio por serem suas águas sempre outras”.
Afirma a instabilidade do mundo, a instabilidade até da própria instabilidade. 3º poema: Ao desconcerto do Mundo Os bons vi sempre passar
No Mundo graves tormentos;
E pera mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só pera mim,
Anda o Mundo concertado. 4º poema: Tanto de meu estado me acho incerto Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio;
O mundo todo abarco e nada aperto.
É tudo quanto sinto um desconcerto;
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto.
Estando em terra, chego ao Céu voando;
Nu~a hora acho mil anos, e é de jeito em mil anos não posso achar u~a hora. Se me pergunta alguém porque assim ando, Respondo que não sei; porém suspeito Que só porque vos vi, minha Senhora. 5º poema: Sete anos de pastor Jacob servia Sete anos de pastor Jacob servia Labão, pai de Raquel, serrana bela; Mas não servia ao pai, servia a ela, E a ela só por prêmio pretendia. Os dias, na esperança de um só dia, Passava, contentando-se com vê-la; Porém o pai, usando de cautela, Em lugar de Raquel lhe dava Lia. Vendo o triste pastor que com enganos Lhe fora assi negada a sua pastora, Como se a não tivera merecida; Começa de servir outros sete anos, Dizendo: – Mais servira, se não fora Para tão longo amor tão curta a vida! Fonte: Sonetos, de Luiz Vaz de Camões (Coleção Roteiro de Leitura), Ed. Ática, 1998.
segunda-feira, 24 de março de 2014
Disciplina - Entrevista com o professor Lino de Macedo
Fonte: http://revistaescola.abril.com.br/crianca-e-adolescente/comportamento/disciplina-conteudo-como-qualquer-outro-431413.shtml
Lino de Macedo: "Disciplina é um conteúdo como qualquer outro"
Para o psicólogo especializado em Piaget, o comportamento dos alunos em sala de aula é algo que precisa ser ensinado e varia de acordo com a atividade
Márcio Ferrari (novaescola@fvc.org.br)
Ao longo da carreira, Lino de Macedo, professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, se especializou no construtivismo do suíço Jean Piaget (1896-1980), na psicologia aplicada à educação e nos jogos infantis ele coordena um laboratório de pesquisas e elaboração de atividades relacionadas às brincadeiras e voltadas para a escola. Um assunto que ocupa particularmente sua atenção são os estágios de desenvolvimento da criança e a importância de o professor conhecer o que acontece em cada fase do crescimento.
Com essa vivência, ele encara um dos temas que mais preocupam os educadores: a disciplina. Segundo o psicólogo, disciplina na escola não é questão de boa conduta nem de formação trazida de casa. "Disciplina se aprende e é do interesse de todo mundo, porque facilita a relação da gente com as coisas." O que o professor pode fazer para que a turma se comporte como deve? O exemplo é um dos caminhos. "Fala-se muito que as crianças de hoje não têm limites. Mas nós, adultos, também não temos." Macedo acaba de lançar uma nova coletânea de textos, Ensaios Pedagógicos, que tem como subtítulo a pergunta Como Construir uma Escola para Todos? Um dos capítulos trata especificamente de disciplina, tema discutido na entrevista a seguir, concedida a ESCOLA, em São Paulo.
É possível ensinar disciplina?
Lino de Macedo: Sim. Disciplina é uma competência escolar que as crianças aprendem como qualquer conteúdo. Condição para realizar um trabalho com êxito, é uma matéria interdisciplinar, porque dela dependem todas as outras.
A disciplina vem de casa?
Lino de Macedo: Para alguns educadores, sim. Quem considera a disciplina uma coisa que se tem ou não se tem possui uma visão moralizante que transforma uma competência numa questão de valor. Para eles, a disciplina depende da força de vontade do aluno ou da determinação dos pais. Essa visão atribui culpa em caso de indisciplina. De fato, na escola exclusiva, anterior à atual, selecionavam-se os alunos e ficavam de fora aqueles que não se ajustavam ao comportamento desejado. Nesse caso, disciplina era mesmo um pré-requisito para a escola. Hoje, comportadas ou não, todas as crianças têm direito a estudar.
Com essa vivência, ele encara um dos temas que mais preocupam os educadores: a disciplina. Segundo o psicólogo, disciplina na escola não é questão de boa conduta nem de formação trazida de casa. "Disciplina se aprende e é do interesse de todo mundo, porque facilita a relação da gente com as coisas." O que o professor pode fazer para que a turma se comporte como deve? O exemplo é um dos caminhos. "Fala-se muito que as crianças de hoje não têm limites. Mas nós, adultos, também não temos." Macedo acaba de lançar uma nova coletânea de textos, Ensaios Pedagógicos, que tem como subtítulo a pergunta Como Construir uma Escola para Todos? Um dos capítulos trata especificamente de disciplina, tema discutido na entrevista a seguir, concedida a ESCOLA, em São Paulo.
É possível ensinar disciplina?
Lino de Macedo: Sim. Disciplina é uma competência escolar que as crianças aprendem como qualquer conteúdo. Condição para realizar um trabalho com êxito, é uma matéria interdisciplinar, porque dela dependem todas as outras.
A disciplina vem de casa?
Lino de Macedo: Para alguns educadores, sim. Quem considera a disciplina uma coisa que se tem ou não se tem possui uma visão moralizante que transforma uma competência numa questão de valor. Para eles, a disciplina depende da força de vontade do aluno ou da determinação dos pais. Essa visão atribui culpa em caso de indisciplina. De fato, na escola exclusiva, anterior à atual, selecionavam-se os alunos e ficavam de fora aqueles que não se ajustavam ao comportamento desejado. Nesse caso, disciplina era mesmo um pré-requisito para a escola. Hoje, comportadas ou não, todas as crianças têm direito a estudar.
Qual o principal erro da escola em relação à disciplina?
Lino de Macedo: É pensar que existe um único tipo de disciplina e que ela só pode ser imposta. Minha idéia é que disciplina é um trabalho de todos em sala de aula. Constrói-se a melhor forma de acordo com a necessidade. Numa aula tradicional, expositiva, enquanto o professor fala ou escreve no quadro-negro, os alunos devem ficar quietos, prestar atenção e copiar. Acontece que hoje temos muitas propostas pedagógicas. Cada cultura escolar e cada atividade em sala de aula têm uma disciplina adequada a seu desenvolvimento. Dependendo da situação, a melhor pode ser o silêncio, as crianças perguntando ou conversando entre si.
É possível ensinar disciplina pelo exemplo?
Lino de Macedo: Sim. Um erro comum é achar que a falta de disciplina é sempre do outro. Fala-se muito que as crianças de hoje não têm limites. É verdade. Mas nós, adultos, também não temos. Em uma sociedade como a nossa, um dia se almoça de manhã, outro dia de tarde, outro dia enquanto se fala ao celular. Nós é que não temos rotinas para organizar a vida das crianças. Entendemos os motivos da nossa "indisciplina" porque sabemos que para muitas pessoas a regularidade se tornou impossível. Mas, se nós não somos disciplinados, por que esperamos um comportamento regular das crianças, como se fosse uma coisa natural, espontânea, quase herdada? Podemos conquistar o aluno para um projeto de disciplina conseguindo a admiração dele. Em sua origem, a palavra disciplina tem a ver com discípulo. Discípulo é uma pessoa que tem alguém como modelo e se entrega pelo valor que atribui a essa pessoa. Com o tempo, perdeu-se o elemento de referência que havia antigamente. Isso tem de ser novamente conquistado, pouco a pouco, pelos dois lados.
A disciplina que se aprende na escola serve para a vida toda?
Lino de Macedo: A gente tem de pensar a disciplina ao mesmo tempo como fim e como meio. É um fim porque podemos desenvolver atitudes como concentração, responsabilidade, interesse. Essas coisas viram ferramentas pessoais e de trabalho. Disciplina é também um meio, um instrumento sem o qual as coisas não acontecem ou acontecem fora do prazo ou dos padrões.
A disciplina ajuda a desenvolver a autonomia?
Lino de Macedo: Disciplina é, cada vez mais, autodisciplina. Um exemplo é a lição de casa. Hoje em dia a maioria das famílias não tem um adulto com tempo disponível para fiscalizar o dever. A própria criança aprende a administrar essa tarefa e, se necessário, ela pede socorro. A autonomia é uma conquista, um aprendizado complexo e longo pelo qual as crianças desenvolvem a disciplina para dar conta de suas tarefas.
O que é ser uma pessoa disciplinada?Lino de Macedo: Ser disciplinado significa ter um comportamento subordinado a regras. Mas o que é regra? Algo que se constrói por consentimento. É como em um jogo. As regras são arbitrárias, mas a criança aceita porque gosta de jogar. Sem regra, não há jogo. Para definir regras, usamos o recurso da democracia. A classe toda discute, sob a condição de que todos aceitem o que a maioria decidir. O problema é que a minoria pode se recusar a cumprir. Deve-se combinar previamente que a não observação das regras implicará punições ou perdas. Um dos motivos que nos levam a aderir à disciplina são as conseqüências de não nos entregarmos a ela. Convencer é diferente de impor.
Todas as obrigações devem ser submetidas a discussão?
Lino de Macedo: Não. Por exemplo: muitos pais perguntam aos filhos se eles querem comer. Eu não acho que seja uma boa pergunta. Porque, se o filho disser que não quer comer, como fica? A melhor pergunta é o que ele quer comer, dando opções. Dar autonomia não significa abrir mão do seu papel de líder e de responsável por certas coisas. Se você submeter tudo à opinião da maioria das crianças, a curto prazo elas vão decidir pelo pior. Primeiro, tenta-se convencer. O último recurso é impor. É errado tentar tratar como homogêneo algo desigual como a relação adulto e criança ou a relação professor e aluno.
As crianças conseguem entender a importância da disciplina?
Lino de Macedo: Em 1930 Piaget escreveu um livro importante, O Julgamento Moral da Criança, e mostrou que mesmo as bem pequenas já têm valores como o gosto pelas regras, pela disciplina, pelo fazer bem-feito e por se entregar a uma tarefa coletiva. Só que o adulto não percebe. Piaget provou que é possível ver isso usando o exemplo das brincadeiras. A própria garotada se auto-regula e se submete a regras coletivas. Piaget analisou como o respeito entre iguais promove o desenvolvimento da criança. Muitos pais e professores sabem compartilhar com ela a necessidade de uma regra de forma que a criança até reclama, mas aceita, entendendo que é o melhor.
Como ensinar a disciplina na pré-escola?
Lino de Macedo: Para alunos da Educação Infantil, digamos de 2 a 6 anos, a brincadeira, a fantasia, as histórias são ótimas estratégias. A argumentação científica não funciona com os pequenos. O recurso lúdico soa sincero para a criança, porque é uma espécie de dramatização do assunto, uma elaboração simbólica da questão. Nessa idade, outro recurso possível é simplesmente, com habilidade, dar uma ordem e pedir que ela seja cumprida. Nesse caso, é preciso deixar claro para a criança que há uma diferença entre ela e o adulto. Ela sabe disso e até se sente aliviada.
Como ensinar a disciplina no Ensino Fundamental?
Lino de Macedo: A idade dos 7 aos 11 anos é interessante para trabalhar disciplina como uma boa regra ou uma regra sem a qual certas coisas não se desenvolvem bem. O convencimento se dá de forma empírica, com exemplos, discussão, não mais como faz-de-conta. Uma coisa é o imaginário, outra é a própria negociação da regra. O problema do convencimento no seu sentido adulto é que ele supõe um pensamento hipotético-dedutivo ("se você não fizer isso, acontece aquilo"). Mas crianças com menos de 12 anos não entendem esse pensamento. É preciso trabalhar com elas a própria construção das regras mais adequadas para uma determinada tarefa que se espera que realizem.
A disciplina e a ordem podem prejudicar a criatividade?
Lino de Macedo: Rigidez é uma coisa, rigor é outra. Os artistas, que trabalham com criação, costumam ser super-rigorosos. Já rigidez é acreditar que uma coisa só pode ser feita de um jeito, definido arbitrariamente. A disciplina está do lado da criação, mas não é uma só. Alguns trabalham de dia, outros à noite; alguns de um modo, outros de outro. A maior parte dos artistas tem de cumprir prazos, se impõe tarefas. Se não houver disciplina, você pára no meio, esquece. Acontece que muitas vezes nós, adultos, usamos o discurso do rigor para defender nossa rigidez ou nossa incapacidade de lidar com as situações.
Lino de Macedo: É pensar que existe um único tipo de disciplina e que ela só pode ser imposta. Minha idéia é que disciplina é um trabalho de todos em sala de aula. Constrói-se a melhor forma de acordo com a necessidade. Numa aula tradicional, expositiva, enquanto o professor fala ou escreve no quadro-negro, os alunos devem ficar quietos, prestar atenção e copiar. Acontece que hoje temos muitas propostas pedagógicas. Cada cultura escolar e cada atividade em sala de aula têm uma disciplina adequada a seu desenvolvimento. Dependendo da situação, a melhor pode ser o silêncio, as crianças perguntando ou conversando entre si.
É possível ensinar disciplina pelo exemplo?
Lino de Macedo: Sim. Um erro comum é achar que a falta de disciplina é sempre do outro. Fala-se muito que as crianças de hoje não têm limites. É verdade. Mas nós, adultos, também não temos. Em uma sociedade como a nossa, um dia se almoça de manhã, outro dia de tarde, outro dia enquanto se fala ao celular. Nós é que não temos rotinas para organizar a vida das crianças. Entendemos os motivos da nossa "indisciplina" porque sabemos que para muitas pessoas a regularidade se tornou impossível. Mas, se nós não somos disciplinados, por que esperamos um comportamento regular das crianças, como se fosse uma coisa natural, espontânea, quase herdada? Podemos conquistar o aluno para um projeto de disciplina conseguindo a admiração dele. Em sua origem, a palavra disciplina tem a ver com discípulo. Discípulo é uma pessoa que tem alguém como modelo e se entrega pelo valor que atribui a essa pessoa. Com o tempo, perdeu-se o elemento de referência que havia antigamente. Isso tem de ser novamente conquistado, pouco a pouco, pelos dois lados.
A disciplina que se aprende na escola serve para a vida toda?
Lino de Macedo: A gente tem de pensar a disciplina ao mesmo tempo como fim e como meio. É um fim porque podemos desenvolver atitudes como concentração, responsabilidade, interesse. Essas coisas viram ferramentas pessoais e de trabalho. Disciplina é também um meio, um instrumento sem o qual as coisas não acontecem ou acontecem fora do prazo ou dos padrões.
A disciplina ajuda a desenvolver a autonomia?
Lino de Macedo: Disciplina é, cada vez mais, autodisciplina. Um exemplo é a lição de casa. Hoje em dia a maioria das famílias não tem um adulto com tempo disponível para fiscalizar o dever. A própria criança aprende a administrar essa tarefa e, se necessário, ela pede socorro. A autonomia é uma conquista, um aprendizado complexo e longo pelo qual as crianças desenvolvem a disciplina para dar conta de suas tarefas.
O que é ser uma pessoa disciplinada?Lino de Macedo: Ser disciplinado significa ter um comportamento subordinado a regras. Mas o que é regra? Algo que se constrói por consentimento. É como em um jogo. As regras são arbitrárias, mas a criança aceita porque gosta de jogar. Sem regra, não há jogo. Para definir regras, usamos o recurso da democracia. A classe toda discute, sob a condição de que todos aceitem o que a maioria decidir. O problema é que a minoria pode se recusar a cumprir. Deve-se combinar previamente que a não observação das regras implicará punições ou perdas. Um dos motivos que nos levam a aderir à disciplina são as conseqüências de não nos entregarmos a ela. Convencer é diferente de impor.
Todas as obrigações devem ser submetidas a discussão?
Lino de Macedo: Não. Por exemplo: muitos pais perguntam aos filhos se eles querem comer. Eu não acho que seja uma boa pergunta. Porque, se o filho disser que não quer comer, como fica? A melhor pergunta é o que ele quer comer, dando opções. Dar autonomia não significa abrir mão do seu papel de líder e de responsável por certas coisas. Se você submeter tudo à opinião da maioria das crianças, a curto prazo elas vão decidir pelo pior. Primeiro, tenta-se convencer. O último recurso é impor. É errado tentar tratar como homogêneo algo desigual como a relação adulto e criança ou a relação professor e aluno.
As crianças conseguem entender a importância da disciplina?
Lino de Macedo: Em 1930 Piaget escreveu um livro importante, O Julgamento Moral da Criança, e mostrou que mesmo as bem pequenas já têm valores como o gosto pelas regras, pela disciplina, pelo fazer bem-feito e por se entregar a uma tarefa coletiva. Só que o adulto não percebe. Piaget provou que é possível ver isso usando o exemplo das brincadeiras. A própria garotada se auto-regula e se submete a regras coletivas. Piaget analisou como o respeito entre iguais promove o desenvolvimento da criança. Muitos pais e professores sabem compartilhar com ela a necessidade de uma regra de forma que a criança até reclama, mas aceita, entendendo que é o melhor.
Como ensinar a disciplina na pré-escola?
Lino de Macedo: Para alunos da Educação Infantil, digamos de 2 a 6 anos, a brincadeira, a fantasia, as histórias são ótimas estratégias. A argumentação científica não funciona com os pequenos. O recurso lúdico soa sincero para a criança, porque é uma espécie de dramatização do assunto, uma elaboração simbólica da questão. Nessa idade, outro recurso possível é simplesmente, com habilidade, dar uma ordem e pedir que ela seja cumprida. Nesse caso, é preciso deixar claro para a criança que há uma diferença entre ela e o adulto. Ela sabe disso e até se sente aliviada.
Como ensinar a disciplina no Ensino Fundamental?
Lino de Macedo: A idade dos 7 aos 11 anos é interessante para trabalhar disciplina como uma boa regra ou uma regra sem a qual certas coisas não se desenvolvem bem. O convencimento se dá de forma empírica, com exemplos, discussão, não mais como faz-de-conta. Uma coisa é o imaginário, outra é a própria negociação da regra. O problema do convencimento no seu sentido adulto é que ele supõe um pensamento hipotético-dedutivo ("se você não fizer isso, acontece aquilo"). Mas crianças com menos de 12 anos não entendem esse pensamento. É preciso trabalhar com elas a própria construção das regras mais adequadas para uma determinada tarefa que se espera que realizem.
A disciplina e a ordem podem prejudicar a criatividade?
Lino de Macedo: Rigidez é uma coisa, rigor é outra. Os artistas, que trabalham com criação, costumam ser super-rigorosos. Já rigidez é acreditar que uma coisa só pode ser feita de um jeito, definido arbitrariamente. A disciplina está do lado da criação, mas não é uma só. Alguns trabalham de dia, outros à noite; alguns de um modo, outros de outro. A maior parte dos artistas tem de cumprir prazos, se impõe tarefas. Se não houver disciplina, você pára no meio, esquece. Acontece que muitas vezes nós, adultos, usamos o discurso do rigor para defender nossa rigidez ou nossa incapacidade de lidar com as situações.
Quer saber mais?
BIBLIOGRAFIA
Ensaios Construtivistas, Lino de Macedo, 170 págs., Ed. Casa do Psicólogo, tel. (11) 3034-3600, 23 reais
Ensaios Pedagógicos, Lino de Macedo, 168 págs., Ed. Artmed, tel. 0800-7033444, 31 reais
Cinco Estudos de Educação Moral, Jean Piaget, Lino de Macedo e outros, 214 págs., Ed. Casa do Psicólogo, 26 reais
O Julgamento Moral na Criança, Jean Piaget, 394 págs., Ed. Summus, tel. (11) 3865-9890, 46,10 reais
Ensaios Construtivistas, Lino de Macedo, 170 págs., Ed. Casa do Psicólogo, tel. (11) 3034-3600, 23 reais
Ensaios Pedagógicos, Lino de Macedo, 168 págs., Ed. Artmed, tel. 0800-7033444, 31 reais
Cinco Estudos de Educação Moral, Jean Piaget, Lino de Macedo e outros, 214 págs., Ed. Casa do Psicólogo, 26 reais
O Julgamento Moral na Criança, Jean Piaget, 394 págs., Ed. Summus, tel. (11) 3865-9890, 46,10 reais
quinta-feira, 20 de março de 2014
Assinar:
Postagens (Atom)
