Luís Vaz de Camões 1º soneto: Amor é fogo que arde sem se ver, Amor é fogo que arde sem se ver,é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?
Tema: paradoxo amoroso
Nas três primeiras estrofes, temos os efeitos paradoxais do
amor no ser humano; na última estrofe, se estabelece a perplexidade
como conclusão do texto.
2º soneto: Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades
Mudam-se os tempos, mudam-se as
vontades,
Muda-se o ser, muda-se a
confiança;
Todo o mundo é composto de
mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na
lembrança,
E do bem, se algum houve, as
saudades.
O tempo cobre o chão de verde
manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o
doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor
espanto:
Tema: Desconcerto do mundo
Este é um dos mais perfeitos sonetos camonianos.Trata-se da temática
da mudança, conforme Heráclito: “Ninguém pode banhar-se duas vezes
no mesmo rio por serem suas águas sempre outras”.
Afirma a instabilidade do mundo, a instabilidade até da própria instabilidade. 3º poema: Ao desconcerto do Mundo Os bons vi sempre passar
No Mundo graves tormentos;
E pera mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só pera mim,
Anda o Mundo concertado. 4º poema: Tanto de meu estado me acho incerto Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio;
O mundo todo abarco e nada aperto.
É tudo quanto sinto um desconcerto;
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto.
Estando em terra, chego ao Céu voando;
Nu~a hora acho mil anos, e é de jeito em mil anos não posso achar u~a hora. Se me pergunta alguém porque assim ando, Respondo que não sei; porém suspeito Que só porque vos vi, minha Senhora. 5º poema: Sete anos de pastor Jacob servia Sete anos de pastor Jacob servia Labão, pai de Raquel, serrana bela; Mas não servia ao pai, servia a ela, E a ela só por prêmio pretendia. Os dias, na esperança de um só dia, Passava, contentando-se com vê-la; Porém o pai, usando de cautela, Em lugar de Raquel lhe dava Lia. Vendo o triste pastor que com enganos Lhe fora assi negada a sua pastora, Como se a não tivera merecida; Começa de servir outros sete anos, Dizendo: – Mais servira, se não fora Para tão longo amor tão curta a vida! Fonte: Sonetos, de Luiz Vaz de Camões (Coleção Roteiro de Leitura), Ed. Ática, 1998.
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