terça-feira, 25 de março de 2014

Luís Vaz de Camões

Luís Vaz de Camões 


1º soneto: Amor é fogo que arde sem se ver,

Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente, 
é dor que desatina sem doer. 

É um não querer mais que bem querer; 
é um andar solitário entre a gente; 
é nunca contentar-se de contente; 
é um cuidar que ganha em se perder. 

É querer estar preso por vontade; 
é servir a quem vence, o vencedor; 
é ter com quem nos mata, lealdade. 

Mas como causar pode seu favor 
nos corações humanos amizade, 
se tão contrário a si é o mesmo Amor?  


Tema: paradoxo amoroso 

 Nas três primeiras estrofes, temos os efeitos paradoxais do
amor no ser humano; na última estrofe, se estabelece a perplexidade
como conclusão do texto. 


 2º soneto: Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,

Muda-se o ser, muda-se a confiança;

Todo o mundo é composto de mudança,

Tomando sempre novas qualidades.



Continuamente vemos novidades,

Diferentes em tudo da esperança;

Do mal ficam as mágoas na lembrança,

E do bem, se algum houve, as saudades.



O tempo cobre o chão de verde manto,

Que já coberto foi de neve fria,

E em mim converte em choro o doce canto.



E, afora este mudar-se cada dia,

Outra mudança faz de mor espanto:

Que não se muda já como soía.

Tema: Desconcerto do mundo

Este é um dos mais perfeitos sonetos camonianos.Trata-se da temática 
da mudança, conforme Heráclito: “Ninguém pode banhar-se duas vezes 
no mesmo rio por serem suas águas sempre outras”. 
Afirma a instabilidade do mundo, a instabilidade até da própria instabilidade.


3º poema: Ao desconcerto do Mundo

Os bons vi sempre passar

No Mundo graves tormentos;

E pera mais me espantar,

Os maus vi sempre nadar

Em mar de contentamentos.

Cuidando alcançar assim

O bem tão mal ordenado,

Fui mau, mas fui castigado.

Assim que, só pera mim,

Anda o Mundo concertado.



4º poema: Tanto de meu estado me acho incerto

Tanto de meu estado me acho incerto,

Que em vivo ardor tremendo estou de frio;

Sem causa, juntamente choro e rio;

O mundo todo abarco e nada aperto.



É tudo quanto sinto um desconcerto;

Da alma um fogo me sai, da vista um rio;

Agora espero, agora desconfio,

Agora desvario, agora acerto.


Estando em terra, chego ao Céu voando;

Nu~a hora acho mil anos, e é de jeito

em mil anos não posso achar u~a hora.



Se me pergunta alguém porque assim ando,

Respondo que não sei; porém suspeito

Que só porque vos vi, minha Senhora.


5º poema: Sete anos de pastor Jacob servia

Sete anos de pastor Jacob servia

Labão, pai de Raquel, serrana bela;

Mas não servia ao pai, servia a ela,

E a ela só por prêmio pretendia.


Os dias, na esperança de um só dia,

Passava, contentando-se com vê-la;

Porém o pai, usando de cautela,

Em lugar de Raquel lhe dava Lia.



Vendo o triste pastor que com enganos

Lhe fora assi negada a sua pastora,

Como se a não tivera merecida;


Começa de servir outros sete anos,

Dizendo: – Mais servira, se não fora

Para tão longo amor tão curta a vida!


Fonte: Sonetos, de Luiz Vaz de Camões (Coleção Roteiro de Leitura), Ed. Ática, 1998.





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